In A Rut

Punk, reggae, peso, engajamento, drogas, e tragédia. A banda de hoje é não da primeira, mas sim da segunda onda do punk inglês. Sim, o Ruts, apesar de formado em 1977, faz parte da segunda leva das bandas da primeira geração de bandas de punk rock, que não foram formadas entre 1975-1976.


Malcolm Owen e Paul Fox eram amigos de escola e chegaram a fazer parte - pasmem - de uma comunidade hippie no País de Gales, onde tiveram seu primeiro contato com formar uma banda. De volta à Londres e já escolados com a maneira de se ter e levar uma banda, foram fazendo parte da cena de bandas locais, algo realmente para se ganhar dinheiro na noite.

Malcolm fazia bicos de DJ em 1977 e começou a se ligar no som que tomava conta das ruas e pirou. Começou escrever algumas letras como H-Eyes e In a Rut, chamou Paul Fox e em agosto de 1977 The Ruts estava formado. Inclusive o nome da banda veio justamente pelo nome da música escrita por Malcolm Owen! E o som que tomava conta das ruas nessa época não era apenas o punk rock mas sim o reggae, som que eles eram muito fãs e antenados.

The Ruts não era uma banda como as outras da mesma época. Não se renderam à concessões, o som era exatamente como tinha que ser. Imagino que esse pensamento seja igual ao de muitas bandas que vieram posteriormente, com uma crítica forte às primeiras bandas de punk, tidas como vendidas ou algo que o valha.

O primeiro show veio ainda em setembro de 1977 mas a banda mais amadurecida fez barulho mesmo em janeiro de 1978 abrindo para a banda americana Wayne County & The Electric Chairs. A banda ainda tinha um repertório enxuto mas muito poderoso, o que atraiu os olhos de muita gente. 

 

Eles tinham uma ligação e amizade forte com a banda de reggae Misty In Roots, que além de tocarem nos shows da Rock Against Racism, tinham um selo chamado People Unite, que lançou o primeiro compacto da banda, In A Rut. John Peel, o maior radialista, DJ e entusiasta do punk rock, ajudou demais na divulgação do compacto e logo a Virgin Records já colocou as mãos na banda. Isso criou uma tensão interna, porque parte queria se manter independente e parte não.

 

O fato é que o contrato foi assinado e o genial compacto Babylon's Burning / Society foi lançado em junho de 1979 e explodiu. Babylon's Burning é até hoje uma das melhores músicas já compostas dentro do punk rock de todas as épocas. A urgência, letra, riff, tudo. Society também não fica atrás e é uma crítica ácida à sociedade inglesa da época.


Depois de Something That I Said, outro compacto de sucesso, era hora do disco. E não foi qualquer disco, foi uma obra-prima. The Crack chama a atenção primeiro pela capa, pintada pelo artista John H. Howard (hoje a arte original foi adquirida por Henry Rollins, fã incondicional da banda). E as músicas são coisa séria. A banda estava em seu ápice. Até hoje acho que não poderia ter existido escolha melhor para se começar um disco do que com a sirene de Babylon's Burning. É algo como "é isso aí, a criançada já brincou, agora a coisa vai ficar séria mesmo).

 

(Henry Rollins com a arte original da capa)

O disco segue com diversas músicas icônicas como Dope For Guns, S.U.S., Jah War, que mostra que a banda realmente fazia reggae e não era algo apenas para seguir uma tendência. Ainda seguem com Criminal Mind, um som nervoso com uma das letras que mais expressam a juventude punk da época e seguem com outra música sensacional como Out Of Order. É um exemplo perfeito do que um disco de punk rock deve ter, mesmo tendo influência de outros estilos.


 Após o lançamento do disco, a banda seguiu fazendo diversos shows pelo Rock Against Racism, sendo bem posicionada sobre o assunto. Mas havia um problema. O vocalista Malcolm era viciado em heroína, tentou esconder isso dos outros membros da banda mas uma hora ficou insustentável. A banda já não aguentava mais a forma com que ele estava lidando com o vício e o dispensou. Para ajudar, sua esposa também não aguentava mais e foi embora. Infelizmente, em 14 de julho de 1980, Malcolm Owen morreu de overdose de heroína na casa dos pais. Chega a ser irônico Malcolm ter morrido de overdose com músicas criticando drogas como H-Eyes (letra bem clara, inclusive) e Dope For Guns. Uma perda irreparável.

Foram uma banda comparada ao Clash, ao Members e realmente acho que não faz o menor cabimento tal comparação. É pela relação com o reggae? O reggae sempre esteve ligado ao punk londrino e, convenhamos, das três, o Ruts foi a que menos "abusou" do reggae nas músicas. Além disso, a produção do The Crack é absolutamente mais nervosa que a do At The Chelsea Nightclub do Members e o primeiro do Clash. Amo os três discos, mas acho injusta a comparação e colocarem o Ruts em uma prateleira como "mais uma banda que tinha reggae igual o Clash e o Members". Ouçam e tirem suas próprias conclusões.

Fique AQUI com The Crack (Link do Spotify)

Fique AQUI com The Crack (Link do YouTube)

Comentários

  1. Texto incrível. Uma das bandas do 🖤 mesmo.

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    1. Fico muito feliz que tenha gostado! Logo tem mais coisa legal vindo por aí.

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