Cruzando O Mar Vermelho Com Os Adverts

Apesar de existir toda uma estética visual e sonora dentro do punk, algumas bandas quebram essas barreiras e criam obras únicas. Um exemplo disso é o Adverts.



Tim Smith era vocalista de uma banda chamada Sleaze na cidade de Torquay quando conheceu Gaye Black. Quando o Sleaze acaba, Tim começa a ensinar Gaye a tocar baixo e os dois se mudam para Londres com a intenção de montar uma banda. No início, a idéia era que a banda chamasse One Chord Wonders, mas acabaram decidindo por The Adverts. 

Como era de costume, colocaram um anúncio na revista Melody Maker à procura de um guitarrista com um uma característica insusitada. Queriam "um guitarrista especial mas que não fosse especial". Quem assumiu a guitarra foi Howard Boak, ou Howard Pickup, como seria conhecido a seguir. Tim também assumiu outro nome, virou TV Smith. Nesse meio tempo, uma pessoa importante foi John Towe, baterista do Generation X, que indicou Laurie Muscat para a bateria. Reza a lenda que no desespero, nem fizeram audição, já contrataram na hora.

Laurie virou Laurie Driver e não sabia tocar nada de bateria, então John Towe deu alguns toques para que saísse algo ao menos decente dali. O primeiro show foi, claro, abrindo para o Generation X no lendário Roxy Club e o que mais chamou a atenção do público foi ter uma baixista mulher na banda. Se no mundo machista de hoje já falta espaço para mulheres, no final dos anos 70 então...

Os shows no Roxy se tornaram frequentes e a banda acabou assinando com a lendária Stiff Records, casa do Damned, Nick Lowe, entre outros. Pouca coisa não era. Além de assinarem com a gravadora, também gravaram o compacto One Chord Wonders, mas hoube uma grande discordância da banda perante a capa do compacto, que saiu com o rosto da Gaye. A banda foi contra utilizar a imagem dela como se fosse para atrair as pessoas por ser uma mulher e não pelo som. Ela mesma se sentiu muito desconfortável com a exposição, pois não queria holofote algum. E para piorar, foi feita uma sessão de fotos com todos eles, ninguém sabia que sairia somente ela na capa até a capa impressa.

Como faziam parte da Stiff Records, saíram em turnê com o Damned, mas depois da relação abalada com a gravadora após esse incidente e com a gravadora dando o maior suporte ao Damned, logo arrumaram um contrato com um selo maior, que fazia parte do grupo Paramount, ou seja, a chance de exposição no mercado norte-americano.

Participaram de uma Peel Session e logo em seguida saiu o compacto de Gary Gilmore's Eyes e Bored Teenagers, clássicos absolutos. Como a banda estava inspirada. Com isso, foram recrutados para abrir alguns shows do Iggy Pop, com o compacto Safety In Numbers saindo a seguir.

Já estava mais do que na hora do LP. Escolheram o Abbey Road para gravar e de lá saiu em 1978 um dos melhores discos já feitos na história do punk mundial até hoje. Crossing The Red Sea With The Adverts é perfeito e até hoje não há nada que soe como esse disco. Existe a estética mantida em partes mas também mostra uma quebra de uma série de coisas dentro do punk, letras incrivelmente inteligentes, melodias que são até difíceis de explicar pra quem nunca ouviu. É punk rock mas beira a new wave, vanguarda, é um disco único, com uma capa incrível e toda a concepção primorosa.

Depois do lançamento do disco, houveram muitos desentendimentos com a gravadora em que estavam e acabaram assinando com a RCA, outra gravadora major. Para a produção do segundo disco, levaram mais de oito meses, muito diferente da concepção do primeiro e infelizmente o disco deixou a desejar em tudo. Não há energia, soa muito pretensioso, talvez pelo som que atingiram no primeiro disco, mas esqueceram da pegada. O disco foi ignorado por público e mídia, o que causou a ruptura do grupo. Ainda gravaram uma outra Peel Sessions antes de terminar mas já não havia mais o que fazer.

Ouçam AQUI Crossing The Red Sea With The Adverts (Link do Spotify)

Ouçam AQUI Crossing The Red Sea With The Adverts (Link do YouTube)


Comentários